Filmes e Filósofos

 


“Ladrões de Bicicletas” – Vittorio De Sica – 1948.

Introdução ao pensamento de Aristóteles (questão de verossimilhança – qualidade do que parece verdadeiro). Para o filósofo verossímil é aquilo que, mesmo não sendo verdadeiro, é coerente, plausível e compatível com a experiência humana. Ex: o que poderia ser verdadeiro.

Temas: Pobreza e Sobrevivência Dignidade versus Desespero Laços Familiares Indiferença Social Moralidade em tempo de crise.



"Paris, Texas" - Wim Wenders (1984)

Hegel – “Paris Texas” – Wim Wenders (1984) Uma introdução às ideias de Hegel – O tempo e as transformações: dialética, a formação da consciência (Bildung) e o reconhecimento (Anerkennung).

A história acompanha Travis Henderson (Harry Dean Stanton), um homem que surge desorientado no deserto do Texas após quatro anos desaparecido. O irmão Walt encontra-o e leva-o para Los Angeles, onde Travis reencontra o filho Hunter, agora criado pelos tios. A relação entre pai e filho renasce lentamente, levando ambos a uma viagem para reencontrar Jane, mãe de Hunter, que vive em Houston.

Temas: Alienação, Memória Fragmentada, Relações familiares, Paisagem como estado emocional, Amor e Perda.

Tese: o Travis anterior ao desaparecimento — marido, pai, mas emocionalmente descontrolado.

Antítese: o Travis errante, mudo, desidentificado, que rejeita qualquer laço social.

Síntese: o Travis que, ao reencontrar Hunter e Jane, reconhece sua responsabilidade e escolhe renunciar para permitir que os outros vivam melhor.

Em Fenomenologia do Espírito, Hegel afirma que a consciência só se torna plena quando é reconhecida por outra consciência.

 

O deserto, descrito como espaço de negatividade, silêncio e perda de sentido.

A perda da linguagem (mutismo)

A perda da identidade (amnésia)

A perda do lugar social (vagabundagem)

Essa negatividade não é destruição pura: é o vazio necessário para que uma nova forma de consciência emerja — exatamente como na dialética hegeliana.




“O Passageiro: Profissão Repórter” 1975, Michelangelo Antonioni


Sartre - O filme acompanha David Locke, um jornalista cansado da própria vida que, ao encontrar um homem morto muito parecido consigo, decide assumir sua identidade — sem saber que o falecido era um traficante de armas procurado. A partir daí, Locke entra numa espiral de perseguições, encontros enigmáticos e reflexões sobre liberdade e destino.

Explora a identidade, fuga e a incapacidade de realmente escapar a si mesmo. 

David Locke tenta viver a liberdade radical que Sartre descreve — e falha. Ele tenta “ser outro”, mas continua condenado à própria consciência, às próprias escolhas e às consequências delas.

 


Que horas Ela Volta?” Anna Muylaert, 2015


Foucault – Temas: Desigualdade Social, Violência Simbólica, Capital Cultural e Interseccionalidade.

O filme acompanha Val, empregada doméstica que trabalha e mora na casa de uma família de classe média alta em São Paulo. Após anos longe da filha, Jéssica chega para prestar vestibular na USP — e sua presença desestabiliza a ordem tácita da casa. Essa rutura expõe as fronteiras invisíveis que estruturam o cotidiano brasileiro: quem se pode sentar à mesa, quem pode usar a piscina, quem tem direito ao afeto e quem deve permanecer “no seu lugar”. 

Mecanismos de poder que Foucault descreve: vigilância, disciplina, normalização, corpos dóceis, microviolências e a produção de sujeitos dentro de hierarquias sociais.

A casa é um dispositivo de poder.

Val é um corpo disciplinado.

Jéssica é a resistência.

A vigilância é constante.

As normas são invisíveis.

A desigualdade é produzida por micropráticas.

O poder circula nos gestos, nos espaços, nos silêncios.

 


Hannah Arendt – “O Tambor” – 1979 – Volker Schlöndorff – Oskar decide parar de crescer aos 3 anos após receber um tambor, como protesto contra a hipocrisia, violência e passividade da sociedade alemã durante a ascensão do nazismo. Tema: A banalidade do mal.



Jean Baudrillard – “Matrix” – 199 – Irmãs Wachowski – Cyberpunk numa estória realidade simulada, controlo e liberdade.

O filósofo diz que na sociedade contemporânea já não lidamos com a realidade, mas com simulacros – representações que substituem o real ao ponto de o tornarem irreconhecível. No entanto, Matrix ainda acredita numa verdade por detrás da ilusão, e Baudrillard, que o viu, não!


Nietzsche“Sátántangó” – Béla Tarr – 1994 – Estória de uma comunidade rural miserável numa quinta coletiva em colapso após o fim do regime comunista. Os habitantes acreditam que “Irimiás”, um homem misterioso que julgavam morto, está prestes a regressar, e que virá salvá-los.

Temas: três eixos centrais, niilismo, vontade de poder e má‑consciência.

Sátántangó aproxima-se da Genealogia da Moral de Nietzsche.


Kierkegaard – “Gritos e Sussurros” - 1972, de Ingmar Bergman. Uma meditação sobre dor, morte, intimidade e a impossibilidade de comunicação humana. A obra combina rigor formal, simbolismo visual e uma profundidade psicológica. A história decorre numa mansão sueca no início do século XX, onde Agnes, agonizando com um câncer terminal, é acompanhada por suas duas irmãs — Maria e Karin — e pela criada Anna.

O filme encena, de modo visceral, vários temas centrais do pensamento kierkegaardiano: angústia, desespero, subjetividade, silêncio de Deus e a busca por um salto existencial que nunca chega.




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